Já eram 19:00. O Sol, com toda sua grandeza, estava se pondo, e deixando a lua brilhar, demonstrando humildade por parte da estrela. Preparativos eram feitos, as ruas estavam sendo enfeitadas, luzes e decorações estavam sendo postas em todo o canto. Barracas eram erguidas, cartazes eram suspensos, com os dizeres "Já se faz 600 anos desde aquele dia...e que seja eternamente."
Todos estavam contribuindo para a comemoração do "Dia Iluminado", o dia em que o imperador Gestrain fora aniquilado do mundo, e uma época de paz se iniciara. O movimento não parava, até que tudo estivesse pronto.
Um jovem, que também estava ajudando nos preparativos, se destacava dos demais: Possuía um cabelo cor do vinho caído até os ombros, um rosto calmo e sereno, olhos pretos como a noite, e usava uma roupa que parecia uma colcha de retalhos, com vários e vários tecidos, todos velhos, custurados uns nos outros, que, estranhamente, estavam num tom de verde, mesmo que as estampas fossem claramente diferentes - e alguns nem tinham estampa - Seu corpo - assim como suas vestimentas - estava com várias manchas de sujeira, e alguns arranhos e cicatrizes, além de uma aparência claramente mal-tratada pelo Sol em sua pele de aparência bronzeada. Talvez o mais destacante em tal rapaz eram suas cicatrizes, uma em sua boca, que a fazia parecer muito maior do que é realmente, e a outra, que começava em sua testa, percorria pelo olho e descia até a bochecha. Ele estava carregando um caixote com alguns legumes, e se dirigiu até um pequeno estabelecimento. Ao entrar lá, foi saudado por uma senhora.
Senhora - Oh, obrigada Sonan.
Sonan - De nada, dona Rosalinda. Eu gosto de ajudar. ^^
Rosalinda - Eu percebi, meu jovem.
Sonan - Onde deixo isso?
Rosalinda - Me siga.
A senhora se dirigiu até a dispensa do estabelecimento, com Sonan a seguindo. O garoto deixou a caixa em um canto, saindo da dispensa logo em seguida.
Rosalinda - Jovem Sonan, você não sabe o quanto eu estou agradecida.
Sonan - Ah, que nada, foi só uma caixa :P
Rosalinda - Há pequenos gestos que fazemos que fazem grande diferença, querido.
Sonan - Tem razão...
Sonan saiu da pequena loja, se despedindo de Rosalinda. O rapaz caminhou pelas redondezas, observando todos os preparativos que as pessoas faziam. Enquanto caminhava, pensou "Nossa, como as pessoas levam esse festival a sério. A morte é motivo de comemoração? Até parece que ele era tão cruel assim."
Ele foi caminhando até chegar numa pequena cabana. A humilde moradia possuía uma aparência velha, desgastada. Parecia muito uma daquelas casas assombradas que aparecem em filmes. O jovem abriu a porta, e ao pisar no chão da cabana, ele sentiu que o chão estava empoeirado.
Sonan - Caramba! Deixo esse lugar por algumas horas e essa merda já tá empoeirada! Ah, foda-se, eu limpo isso amanhã.
O garoto se dirigiu a um dos quartos. O quarto, diferente do resto da casa, parecia ser bem cuidado, embora não oferecesse luxo maior que uma cama velha e uma janela rachada.
Sonan deitou em sua cama e ficou pensando no festival. Mais uma vez se indagou do porque das pessoas odiarem tanto o imperador Gestrain. O que o governante fez de tão ruim assim? Será que deixaram ele se explicar? Foi tudo realmente culpa dele? Ninguém armou para ele? Essas perguntas soavam pela mente do rapaz, e como das outras vezes que chegou a perder noites de sono pensando nisso, não obteve nenhuma resposta.
Sonan - Sinceramente, eu não odeio o Gestrain. Acho que ele foi injustiçado, isso sim! - Falava consigo mesmo.
??? - Fico feliz de ouvir isso, meu rapaz.
Ele tomo um susto como nunca havia tomado antes. Que voz era essa? Ele se levantou rápidamente da cama e se pôs em guarda
Sonan - Quem está aí? Responda, agora! Eu...eu tenho uma arma!
??? - Tem certeza? Você me parece estar de mãos vazias.
Sonan - Diga logo quem está aí! E-eu não estou brincando!
??? - Eu sei que não está, rapaz.
Sonan - Então diga logo quem está aí!
??? - Você.
Sonan - Ahn?
??? - Você está aí, e eu estou aqui.
Sonan - Grr...QUEM É VOCÊ?!
??? - Sou apenas um passarinho indefeso.
Sonan - Como?
??? - Olhe pela janela
Estava com muito medo. A quem pertencia tal voz? E o queria com ele? Seja o que fosse, ele morava naquela casa já faziam anos, e não seria um fantasma, cruz-credo, assombração, macumba, seja-lá-o-que-for que iria expulsá-lo dali. Se quiser, que fosse assombrar outro lugar.
??? - Não tenha medo, não irei lhe machucar. Apenas olhe pela janela.
O rapaz, ainda que com receio, fez o requisitado. Ao olhar pela janela, viu uma árvore. A mesma árvore da qual ele usou muitas vezes pra pegar uma fruta. E do qual já lhe rendeu muitos machucados...
Ele não viu nada de estranho, tudo que havia na árvore era uma águia que estava em um de seus galhos, e parecia olhá-lo fixamente. Ela não possuía íris nem pupila, tudo que havia em seus olhos era um vazio negro.
Águia - BU!
O garoto tomou outro susto.
Sonan - AHHHHHH!!! QUE PORRA É ESSA?! ESSA ÁGUIA FALOU?!
Águia - Eu já falei que era apenas um passarinho indefeso e você ainda me teme?
Sonan - Águias não são nem um pouco indefesas. São caçadoras ferozes!
Águia - Em comparação as outras feras que existem por aí...são bem indefesas.
Sonan - ARRRGHH!! PORQUE ESTOU CONVERSANDO COM UMA AVE?! Será que eu despiroquei de vez?!
Águia - Oh, que falta de educação a minha. Eu me chamo Kyofu, prazer. E você, meu jovem?
Sonan - ...Porque eu te diria?
Kyofu - E porque não diria?
Sonan - Se quer saber meu nome, tente adivinhar.
Kyofu - Céus, me preocupo com minha falta de educação mas acabo de perceber que você é ainda mais mau-educado. Que triste.
Sonan - ...
Kyofu - O que foi?
Sonan - Sinceramente, eu realmente não me sinto confortável falando com um pássaro...ainda mais da janela...
Kyofu - Não seja por isso.
A águia abriu suas asas e levantou vôo. Voou até o quarto de Sonan e pousou na cabeceira da cama.
Kyofu - Aqui talvez possa ser melhor pra você, não?
Sonan - Jesus cristo...no que eu me meti? - Sussurrava consigo mesmo.
Sonan - O que você quer...águia...espírito...robô...feiticeiro...Samara...sejá lá o que você for! O que você quer?
Kyofu - Quero que você preste atenção.
Sonan - Prestar atenção em que?
Kyofu - Veja à sua volta.
O rapaz novamente fez o requisitado. Olhou pela janela mais uma vez, e viu uma espécie de luz caindo do céu, como se fosse um meteoro. Ela estava caindo e caindo... Cada vez mais se aproximando do chão e sua luz ficando cada vez mais intensa a medida que ficava mais perto da crosta.
Sonan - O_O QUE PORRA É--
Ela atingiu o chão. Uma onda de impacto luminosa gigantesca se formou. Cresceu e cresceu, como uma tsunami que logo engoliria tudo.
Sonan se jogou no chão e cobriu a cabeça com as mãos, na tentativa desesperada de se proteger. Kyofu permaneceu imóvel. Nada aconteceu. A luz apenas se espalhou, mas tudo que fez foi iluminar a escuridão, como um relâmpago. Todos que sentiram a luz, pensaram na mesma coisa, e decidiram continuar com os preparativos.
Kyofu - Levante daí garoto, deixe de ser covarde.
Sonan - Hein? Eu to morto?
Kyofu - Sente seu corpo tocar o chão?
Sonan - Sim.
Kyofu - Então você está bem vivo. Levante-se.
Sonan - Certo...
Kyofu - Perfeito.
Sonan - E agora?
Kyofu - vá checar.
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